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  • Maria Moura

Entrevista DJ MC Fino

Atualizado: Set 29


Quem é DJ MC Fino? Considerado “um monte de gente fina em um caboco só” Fino descreve-se como um eterno aprendiz, passivo de erros como todos os seres humanos. Sua criação, rodeada por mulheres que marcaram sua vida, deixou marcas significativas em sua persona, criando alguém com um pouquinho da essência de cada um.


“Na verdade, acredito que sou um patrimônio tombado pela cultura urbana já faço parte da rua mesmo, da galera mesmo, da cultura hip hop, da cultura urbana, já não me pertenço a mim mesmo né?! A riqueza cultural né, que adquiri com o passar do tempo através de vários amigos e de muitas pessoas, assim, me ajudaram a formar essa visão e esse caráter que eu tenho até hoje. ”


Seguindo os preceitos da Zulu Nation, fraternidade em Nova York criada em 73 por Afrika Bambaataa, Fino acredita no hip hop como uma voz para a periferia, uma ferramenta de mudança de vida. Mantendo as portas do hip hop aberta que Fino explora o hip hop como forma de mudança. “Eu levo uma cultura hip hop assim, como uma ferramenta de informação e capacitação e de formação. Vai formando. ”


Quando indagado sobre suas inspirações, Fino afirma que vê o rap como algo pessoal, que apresenta a realidade ao seu redor seja por coisas vividas por si mesmo ou por pessoas próximas. Para ele, seu som é para quem busca respostas escrevendo alertas que avisam, informam e principalmente levam uma mensagem positiva para todos.

Fino diz que sua forma de escrever mudou muito e amadureceu com sua entrada numa igreja em 96. “Eu continuo falando da quebrada, continuo falando, mas eu narro muito os acontecimentos proféticos né, eu falo muito das coisas que vai acontecer [...].


2004 - Uma faixa de improviso

Fino também afirmou que hoje evita falar palavrão em suas letras e que consegue criticar pessoas, e até mesmo o sistema, utilizando a nossa língua. Suas composições levam suas vivencias e, a partir de sua inspiração podem ser criadas de forma mais rápidas ou não. Duas músicas que marcaram Fino são Saudade e Sobrevivi mais uma Vez que, segundo ele, foram difíceis de escrever e narrar por serem inspirados em acontecimentos da sua vida.


“Tem uma chamada Saudade né, que eu narro a história da morte de um amigo meu [...] foi um acidente de carro né, foi cruel [...] as vezes a gente não conseguia cantar a música toda né porque a gente lembrava e as lagrimas vinham e era essa situação.

Uma outra música, eu acho que do outro disco, chama Sobrevivi Mais Uma Vez que essa música eu tava esculachando mesmo a pessoa e tal, não citava o nome né [...] quando eu acabei a música e cheguei em casa, ai eu fiquei naquela pensando [...] ‘E ai mano? Vai perdoar não? Vai ficar com esse rancor? ’ [...] E aí eu fui no estúdio, tirei a parte lá, algumas partes e criei outras partes, já liberando na música né, refiz ela já liberando o perdão pra pessoa e tal e pá. E aquela música que era uma descarga de ódio, acabou sendo só um desabafo”.


Ativo em redes sociais como Facebook e Instagram, Fino leva um hip hop para “todxs” e, por meio dos ensinamentos da Zulu Nation, apresenta a cultura hip hop sem acepção de pessoas e como elemento de conhecimento. “O importante é saber que a cultura hip hop ela muda vida, que a cultura hip hop empoderou muita gente, ela trouxe a voz, ela é aquele megafone que deixa nossa voz mais forte”.


Itacoatiara evento fechado pelo Lil

Com a pandemia, os projetos e divulgação não pararam e Fino foi se adaptando a utilizar cada vez mais essas redes a seu favor. Para ele, a pandemia ajudou de certa forma a criar novas alternativas. “Hoje, cada dia mais começou um eterno aprendiz, como eu disse, e todo dia eu tô aprendendo né, a usar essas coisas (risos) que a gente não usava tanto. Mas de qualquer forma a gente não pode brecar essa evolução, temos que estar trabalhando”.


Fino é criador do projeto Hip Hop em Ação que elenca mais projetos dentro destes como o Opção Sonora, Espaço Favela, Repensando e Coletivo Firme da Fé. O Hip Hop em Ação foi o responsável pelas primeiras batalhas de rap organizadas na cidade. Fino também é um representante ativo de diversos movimento e projetos em todo o Brasil como MHM – Movimento Hip Hop Manaus – e o MHF – Movimento Hip Hop da Floresta – com sede em Porto Velho, além de outros como o Rap da Paz (MG), Vem Comigo Hip Hop (SP) e o Força Tarefa (DF).


Para ele a cultura hip hop precisa estar alinhados com a cultura da região mostrando quem são, o que fazem e de onde veem.


Ceará 2006 encontro de Hip-hop Cris Soul (Floripa e Nelsão)


“O Opção Sonora além de fazer a festa, serve como vitrine para os novos talentos [...] O Espaço Favela, que também saiu do Hip Hop em Ação, além de ser uma oficina em locais onde não tinha muitas ações voltadas ao Hip Hop como cultura também colava na casa de alguns artistas, [...] era dar um espaço pra favela se mostrar entendeu. E com o tempo, a gente viu que vinha muita rapaziada que queria fazer parte e a gente viu o crescimento do Espaço Favela.


E depois nos criamos o Repensando, que já levava o Hip Hop pra dentro dos presídios para os manos que estavam guardados na cadeia. O Repensando levava o Hip Hop para muitos manos que muitas vezes eram esquecidos e abandonados pelos próprios parentes né. Depois a gente criou o Coletivo Firme da Fé que era voltado mais para o público cristão do Hip Hop, os caras que eram da cultura Hip Hop mas eram evangélicos né, alguns mais tradicionais outros mais abertos, mais liberais, outros conservadores e pá [...] e realizava seminários, encontros de troca de ideias, de conversas, por temas variados”.


Para Fino as melhores partes de se viver como artista em Manaus é saber que estamos num lugar onde o planeta todo está de olho. “Temos a faca e o tucumã na mão mano. Com diz o meu amigo Ravier Hernandes , aqui é a mata sagrada que emana o leite e mel”. Vendo-se como um ativista, Fino não almeja as mesmas coisas que um artista na cidade busca e sim o respeito. Para ele, ter respeito, ser tratado do mesmo jeito por todo mundo, transitar em todos os lugares é o mais importante. Já o lado ruim fica a cargo de ideais elevados de sucesso e glamour.

Questionado sobre o cenário cultural da cidade, Fino afirma que faz seus trabalhos independente disso. A partir do início do projeto e da força que este vai ganhando com o tempo, pessoas vão aparecendo para ajuda de alguma forma ou incentivo. Já sobre o cenário cultural em si, Fino afirma que alguns artistas têm sua parcela de culpa quando não são valorizados em seu local. Trocando muitas vezes seu trabalho por entradas em shows e consumo na festa, por vezes artistas que cobram acabam sendo deixados de lado.


“Ai quando um cara né, que trampa e na troca de ideia o cara fala cachê e tal, o cara fala ‘Não deixa pra próxima mano. Eu vou chamar aquele mano ou aquela mana que toca pela entrada, troca por birita’. Lógico que tem pessoas que precisa mesmo, como eu falei, de divulgar seu trampo né é uma oportunidade de tá em um show de 3 a 5 mil pessoas, com uma boa estrutura, onde tua sequencia vai sair legal, pessoas que é massa pra divulgar e tal, mas se valorize um pouco mais saca? ”


Para Fino, o que ajuda realmente o cenário são as pessoas que estão ali, que respeitam uns aos outros e que sabem que é necessária uma união, uma coletividade para que o cenário cultural cresça cada vez mais. Fino afirma que ainda há falhas na parte estrutural, como outros artistas entrevistados pela BKN também comentaram.


“Quando eu digo cenário cultural eu digo os músicos, os DJs, os manos da cultura hip hop, os caras que tem banda, os donos de casa que já conhece o trabalho e sempre fortalece de alguma forma o trabalho né. Eu tenho muito orgulho né, de ver muitos manos meu crescer entendeu, como profissional de chegar no local e eu dizer ‘Não mano, não precisa pagar não mano. Tu é meu brother’ e ai ‘Não mano, vou valorizar seu trabalho não sei o que e tal’ então é isso né”.

Sobre se Fino já sofreu preconceito seja em sua vida ou devido ao seu estilo musical ele afirma que sim, seja pela cor de sua pele, roupas, sons que gosta de escutar, seu cabelo. Vindo de diversos lados, o jeito de combater é utilizando o amor próprio e a autoestima a seu favor. Para ele o preconceito pode ser vencido também com o conhecimento de quem você é.


“Eu sei que ninguém nasce assim né, o preconceito não é a pessoa já nasceu com isso no peito não, isso é ensinado né. Então acho que indiretamente, ou diretamente né, a gente pode influenciar as pessoas a elas não terem mais esse preconceito por outras pessoas tipo ‘Ah, a pessoa me conhece, o meu jeito de falar na gíria, minhas roupas e tal, o gosto musical’ então ela vai ver que eu sou uma pessoa de boa, tranquilo né e tal, que eu levo um hip hop sadio. E isso ela vai ver, quando ela ver uma outra pessoa da mesma forma ela vai dizer ‘Ah tá’. Ai pronto, eu já virei uma referência pra uma pessoa e ela não vai mais tratar aquela”.

Rap Beat 95

Perguntamos também para Fino se ele achava que negros tem tido mais espaço no meio artístico de Manaus. Para ele, a alta valorização dos artistas deve começar entre eles mesmos. O conhecimento da cultura, a informação são algumas das formas de se ganhar espaço e destaque no meio artístico.


“Posso citar aqui promoter, artistas, pessoas que fazem acontecer entendeu, tipo a Keila Serruya, a Dandara, o próprio Ian Lecter, Lua Negra, Aruack, Da Cota, Regina de bengala, e também Intana, lembro também do Heber né... são pessoas que sabe eles fortalecer eles tão ai, eles estão criando as alternativas né. Temos aí a Michele Andrews, Elisa Maia tantas outras pessoas que nem citei aqui que vou citar mano. A pretalhada é grande mano, que tá em Manaus ativa entendeu. São negros e negras que estão aí construindo alternativas não apenas pra eles saca, [...] eles tão fazendo as políticas públicas para que as futuras gerações tenham espaço né, sem precisar tá mendigando espaço de ninguém”.


Sobre seus planos para o futuro Fino que lança um projeto chamado Ouriço com uma banda, que toca diversos estilos musicais e utilizam tanto o português, quanto músicas na língua materna Saterê Mawe. Além disso, também quer criar batalhas de conhecimento pela cidade, buscando novos e velhos talentos e fortalecendo e valorizando artistas locais. Futuramente criar encontros de rap Norte e Nordeste e até mesmo realizar um encontro Zulu Nation Brasil. Fino também quer dar continuidade a seu projeto Mensagem Positiva, alinhado ao Coletivo Filhos da Fé e voltado para o público cristão, voltar com seus projetos, criar bases de Núcleo de Crescimento (NC) em comunidades indígenas e ribeirinhas, além de voltar com suas festas de reggae, as Block Partys e fortalecer, cada vez mais, a cultura hip hop em Manaus.

“Obrigada ai pela oportunidade de me expressar. Eu quero que você que esteja lendo essa matéria, você que não conhecia o meu trabalho, pessoas que já conheciam meu trabalho, caso eu não citei o seu nome na próxima eu vou citar porque é muita gente. Mas você sabe, você que é uma pessoa que me incentivou, você é uma pessoa que me ajudou a ser quem eu sou você faz parte né... você faz parte do corpo. Você é uma pessoa que me ajuda, entendeu, a ser quem eu sou.


Um forte abraço, paz e respeito.


Wuaku Cece (Expressão em Saterê Mawe para “tudo bem, tudo legal ou beleza”)”



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