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  • Paula Oliveira

Entrevista com Renato Junior


Nascido e criado na zona leste de Manaus, o artista visual Renato Junior é um homem negro de periferia de 22 anos que se declara amante das ciências, das artes, de esportes e jogos eletrônicos e é professor de Educação Física da Rede Pública de ensino. “Me considero um ser livre e que busca a cada dia construir um futuro melhor para meus alunos, para minha família e para mim”

Renato começou a fazer as pinturas a pouco tempo, e conta que apesar de sempre ter gostado muito de pinturas e artes em geral, as pinturas começaram a ser feitas durante a pandemia pela qual estamos passando. “Não pintava anteriormente por não achar que conseguiria fazer tal coisa. Não tive muita oportunidade na infância de desenvolver habilidades com pintura”. Renato afirma que já havia inspiração em seu amigo e orientador que é escultor de móveis feitos com madeiras amazônicas, e que em certa oportunidade ao voltar da casa do amigo acabou se deparando com vídeos no youtube sobre pintura acrílica, se encantou e comprou os materiais para começar a produzir seus quadros.



Ao ser questionado sobre como é ser artista preto em Manaus, Renato é categórico ao dizer o que todos os artistas sempre respondem a esta questão, no entanto com uma metáfora muito bem colocada “Ser artista no Amazonas já não é fácil. Ser artista negro aqui é se aventurar num mar apenas com uma canoa e um remo quebrado.”. O artista visual chama atenção para alguns dos vários fatores que podem impedir a ascensão de um artista negro no estado, como a falta de acesso as artes para a periferia, a desvalorização do ensino de artes na rede pública de ensino e o fato de não existirem projetos voltados para o incentivo de produção artística nas periferias da cidade, como na zona leste. “Quantos artistas se perdem no decorrer da vida por falta de oportunidade de um ensino e qualidade nas escolas, nos projetos sociais, para pessoas pretas de perifa?”

“Não conheço muitos artistas visuais negros em Manaus. Para que tenhamos representantes em Manaus teríamos que ter uma educação pública de qualidade. Não é a nossa realidade. Somente tive acesso as artes porque tive oportunidades, como a dança de salão que sou praticante há mais ou menos 3 anos. Onde um preto de periferia vai ter acesso a esta arte? Isso também vale para as artes visuais e demais artes.”

O pintor afirma que a melhor parte de ser artista em Manaus se encontra na diversidade de inspirações para a produção artística “O que não falta é inspiração para pintar quadros”. Enquanto, o principal ponto negativo para ele é a desvalorização da arte, ainda mais da arte regional. “Por isso não vemos negros frequentando o teatro amazonas, um concerto musical, uma opera, um exposição na casa das artes, teatros ao ar livre no Largo São Sebastião. Como esperar que valorizem nossa cultura, a arte de pintar se não temos acesso a isso? É triste, mas é a realidade.”

Ao ser perguntado a respeito de suas inspirações, Renato volta em dois elementos já citados por ele essenciais a sua trajetória nas artes. A Amazônia que inspira suas pinturas, e seu professor e amigo, Vanderlan Santos Mota, que assim como Renato tem grande paixão pela Amazônia e o inspira como artista.

Peço que Renato indique alguma obra sua para quem o está conhecendo agora, apesar do pouco tempo na pintura, ele cita as obras que acredita melhor representarem seu trabalho. “A pintura que eu indico para alguém que não me conhece seria um quadro que nomeei como ‘Recanto a Vitória Régia’. Este quadro foi um dos primeiros e é o que mais retrata a Amazônia. Apesar de amar muito os quadros dos ‘Planetas’ e também o quadro ‘Pôr-do-Sol’.”



Relembro que muitos dos quadros de Renato representam a natureza. Ao ser questionado sobre a existência de alguma motivação especial para esta representação, Renato é categórico: Existe sim! Os quadros voltados a natureza são uma visão que tenho muito encantado da nossa Amazônia. Aprendi um conceito chamado "biomimética" com meu professor orientador em nossos longos diálogos tomando uma cerveja fora do âmbito acadêmico. Esse conceito se refere a COPIAR A NATUREZA. A natureza cria, nós observamos e reproduzimos sua genuinidade, sua essência. Um avião é cópia do quê na natureza? Dos Pássaros. As malocas indígenas? Cópias da casinha feita pelo pássaro "João de barro". E as redes de pescar, o crochês, não se assemelham as teias de aranha? A natureza produz, nós apenas copiamos.

Ao ser perguntado a respeito de planos para o futuro para além da comercialização de suas obras, Renato ressalta a pretensão de sanar a necessidade da difusão de arte em seu bairro, para incentivar as pessoas as artes, e brinca “Quem sabe não sai um Picasso daqui?”. A respeito de possíveis exposições de suas obras, o artista afirma também que tem vontade de realizar algum evento desta natureza nas redondezas de sua comunidade “Entre expor longe ou perto, prefiro perto. Ali, cara a cara com outros que entendem e vivenciam nossas realidades.”

Finalizo nossa conversa propondo um desafio ao pintor, que defina sua arte. E ele não titubeia ao responder: Encantadora na sua simplicidade. Não produzo quadros muito sofisticados, com detalhes realistas ou em 3D. Até porque o traçado que tenho procurado nas pinturas acrílicas são muito diversificados, e to aprendendo conforme pinto. Cara, EU NUNCA PINTEI ASSIM ANTES! Tô muito orgulhoso dos meus quadros. Pra onde ando agora quero ta tirando foto, seja de uma feira de verduras, no porto, no busu, da florestas. Guardo essas fotos no celular e depois fico vendo. Me inspiram a fazer sempre um quadro novo


Acompanhe o trabalho de Renato: https://www.instagram.com/rehjr_/?igshid=rwkklcrcvl3f

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