Buscar
  • Maria Moura

Entrevista com rapper Aruack


Quem é Aruack? Geminiano e rapper, Aruack é a persona que se mistura com Gabriel Souza. Estudante de filosofia, Aruack afirma que parte de sua área de estudo também tem forte influência em seu processo de composição. Nos palcos, Aruack nasce na agonia antes de uma apresentação, na euforia e no sossego, depois que tudo termina. É quem fala o que quer e age como quer. O nome artístico surge para trazer um tipo de inquietação. Quando questionado acerca deste, o rapper explica que Aruack é um tronco da língua indígena que apresenta o Norte, e o rap, para todo o Brasil.


“E mostrar que o Norte do Brasil também tem produção né? Tem gente trabalhando. E toda vez que alguém escuta Aruack já fica cismado, já fica ‘Aruack? O que é isso? ’, fica com a pulga atrás da orelha. Já começa a explanação e aí a ‘peia come’. Já vem a aula de informação, coisas novas, mostrando novas fontes, novas formas de conhecimento para as pessoas que não estão acostumadas com a questão dos povos indígenas, dos povos originários. ” – Afirma o rapper.


Lançada a pouco mais de 10 meses, Flow Wakanda é “pra se escutar e se identificar”. A primeira música do artista é descrita como um soco na cara, um som de preto firmeza, de pretos para pretos. Uma música para se sentir representado. “Acho que Flow Wakanda seria a minha marca. Assim, preto rico, preto chique essas paradas de prosperidade pra gente porque infelizmente as pessoas associam a gente a pobreza, essas paradas assim, mas aos pouco a quebrada tá mudando. ‘Tamo’ saindo da lama, tá ligado? ‘Tamo’ tirando o pé da merda”.

Questionado pelo BKN sobre como ser um artista preto em Manaus, Aruack afirma que nada é fácil num país racista. Trabalhar com qualquer arte ou forma de expressão que fuja dos gostos da elite por vezes pode ser um caminho tortuoso. “Não é fácil ser artista, não é fácil sonhar com arte, não é fácil viver de arte. Pra gente que é preto de periferia não é, nem fácil, consumir arte. A maior dificuldade é de consumir arte e, se der, produzir arte. Não é nada fácil ser um artista preto em Manaus, no Norte ou no Brasil. ”


Em Manaus, uma das piores partes de ser artista na cidade é lidar com a falta de incentivo em produções culturais e por vezes, estes precisam tirar dinheiro do seu próprio bolso para investir em si mesmos, além de contar com parcerias com alguns produtores. Aruack contou que está trabalhando em parceria com a Pedra de Fogo Produções que está facilitando e viabilizando diversos processos, comunicação entre outras coisas. “Também o meu mano André (MC), com Benitos Beat, também o MC Cabeludo que tá me fortalecendo nos beat e o meu mano Vidazio que tá produzindo comigo. Essa rapaziada aí, tá ajudando na produção mas ainda não é fácil ser artista no Amazonas. ”


Já as melhores partes, Aruack afirma não saber se realmente existem. Os ciclos sociais da cidade são pequenos e a maioria das pessoas se conhece. Mesmo com um certo público, ainda é difícil conseguir que mais pessoas consumam o trabalho de artistas da região.


“É que as pessoas acabam meio que desmerecendo a cena, o artista local e não dão uma valorizada. Tem gente que me deve até hoje 5 contos da gravação de um clipe que eu ia fazer. O cara que não paga o ingresso de 5 contos, que pediu no fiado e o artista confiou, você acha que ele respeita a arte que o cara produz, a arte que o cara faz? Aí vem um cara de fora e a pessoa dá R$ 50, R$ 30, R$ 45 para ir pro show do cara e pra aquele que é local, até hoje fica devendo os 5 contos. ”

Aruack também tocou num ponto importante sobre a diferença no tratamento de artistas pretos e artistas brancos na cidade. Enquanto muitos artistas brancos recebem pra se apresentar e cantar, por vezes, artistas pretos precisam pagar para se apresentar nesses locais. “Mas ninguém tem nome não, a gente é tudo amador, os caras que pagam pra poder se apresentar nos locais. Chegando lá a gente tem que pagar a nossa bebida entendeu? A gente tira do nosso bolso enquanto o resto dos brancos tudo recebe pra cantar, se apresentar, pra tá presente. ”



Quando perguntado sobre suas maiores inspirações, Aruack citou nomes como Karen Francis, Gean Melo, Halaise Asaf e Marlon Filho “que são pessoas próximas a mim. Pessoas que produzem arte também e estão próximas a mim, assim, no meio musical. Eu acho muito foda”. Além deles, o rapper também citou Racionais que, segundo ele, é a trilha sonora da periferia. “Sobrevivendo no Inferno é o álbum que consagra toda quebrada. Pra tu ter ideia como é tão forte, esses dias mesmo eu tava ali na Zona Leste, na feira do Mutirão e começou a tocar Negro Drama. Mano, os caras tratando peixe lá na moralzona cantando Racionais. E era uns caras assim, de idade já, acho que nos seus 40 e poucos anos tá ligado? Não era essas rapaziadas empolgadas, novas, que descobriu o rap agora e acha que Matuê é o deus do rap. É uma rapaziada que tem história, que viveu a vida, que sabe o que é a onda.


Aruack também comentou sobre Festas Black na região e afirmou que precisamos promover mais destas para poder conhecer e criar pontes com mais pessoas. Mesmo com uma diversidade de bares em Manaus, a maioria das pessoas que frequenta esses espaços são brancas. “A gente vai assim pro bar mais diferente, que não seja nem gourmet nem alternativo e tá lotado de branco. A gente fica até um pouco acanhado né? Fica meio assim, porra cadê minha rapaziada? Não pertenço a esse local”. Sobre o cenário do rap em Manaus, o artista comentou que não se identifica muito com a cena, somente com algumas pessoas e que prefere até mesmo não ser associado a esta.

“Eu faço meu rolê alternativo, meu trampo é meu pra quem quiser escutar entendeu? Eu não tô fixado numa cena e não faço parte de uma cena, não sou a pessoa da cena do rap manauara. Eu sou um manauara fazendo rap, mas eu não sou o rap manauara” – afirmou.

Ao ser questionado sobre seus planos para o futuro Aruack falou sobre seus planos particulares de comprar uma casa própria e dar estabilidade para sua família e pessoas que estiveram ao seu lado. Sobre a música, Aruack falou sobre novos projetos com a Pedra de Fogo e parcerias com pessoas que trabalham com produção, expandindo sua música para diversas pessoas em todo Brasil.


“Eu quero ganhar território mano. Essa parada de rap é igual trafico, quanto mais área tu consegues, quanto mais áreas tu tem visibilidade, mais retorno tu tem tá ligado? Mais visualizações. Porque o que conta infelizmente são visualizações não o quanto tua arte toca alguém ou quanto alguém se sente representado por tua arte. Hoje em dia mano, o que importa é o clique, não o peso que tua palavra tem, tá ligado? Mas eu quero ganhar área, eu quero ganhar espaço, eu quero ganhar os estados. Mano, eu quero assim, crescer na música, eu não quero ser o fodão, não tô aqui pra ser o rei. O negócio é expandir, é aumentar a minha proporção para que mais pessoas possam me escutar, mais pessoas possam ouvir meu som e dizer ‘Caralho, brabo. O Aruackzinho arregaçou” – finaliza.


Sigam e apoiem: Aruack

Instagram: https://www.instagram.com/aruack092/

Soundcloud: https://soundcloud.com/aruack_avassalador/aruack-flow-wakanda

181 visualizações
 

Formulário de Inscrição

(92) 98420-6790

Manaus - Amazonas

  • Instagram
  • Twitter
  • Facebook

©2020 por Blackout Norte.