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  • Paula Oliveira

Entrevista com Halaise Asaf


Para quem não conhece a Halaise Asaf é uma das artistas que fazem parte da pedra de Fogo produções, atualmente com 22 anos é acadêmica de Letras - Língua Portuguesa, na universidade federal do Amazonas. Da cena do Hip Hop de Manaus, cantora e compositora de Rap, poetisa, é pioneira do projeto Slam (batalha de poesia falada) na cidade de Manaus, com o "Slam na Praça", submetido como projeto de extensão pela UFAM. Organiza eventos e minicursos com temas de literatura marginal e poesia periférica. Acredita piamente que a educação transforma e resignifica a vida de muitos, principalmente a vida dos seus, aqueles que vivem a margem da sociedade, que são esquecidos pelo estado e estigmatizados pelo sistema, por isso luta por uma educação inclusiva e igualitária, para que crianças e adolescentes tenham um real acesso a leitura, a poesia, a arte e a cultura.

Você sente que Pergunto a Halaise se existe influência da sua vivência na universidade no seu processo criativo na hora de compor, ela responde:

Sim, sinto que a universidade foi de fundamental importância para ter argumentos, visibilidade e voz no meio acadêmico. Já que pelo fato de estudar língua portuguesa tenho acesso a materiais e disciplinas que abriram caminhos para fomentar ainda mais o meu processo criativo. Por exemplo tenho uma música chamada *Pantera Negra*, claro que nela tem muito da minha vivência e da vivência dos meus amigos e pessoas que sofrem constantemente com o racismo, mas foi somente depois que li um artigo de uma disciplina sobre racismo velado que tive a ideia de passar tudo que tive acesso naquele artigo para música, de forma que os meus manos e minas que não podem ter o mesmo acesso que eu, entenda da maneira deles, ou seja, através do rap, o que é racismo velado, com embasamento estudo científico e de campo.

Ao ser confrontada com a questão de como é ser uma artista preta em Manaus, Halaise é categórica:

Cara, ser artista em Manaus é difícil, ser preto, ser de periferia e ser mulher em Manaus, no Brasil e no mundo é mais difícil ainda, então...

Eu sou todas as quatro coisas hahaha

Sou uma artista, mulher, preta e periférica.

[...] É bem desanimador você correr por algo e não ter retorno, por isso eu sempre digo que tem que existir uma causa maior, porque senão você desiste. Eu tenho uma causa maior no Hip Hop sabe, na minha militância e no meu processo artístico, eu faço pq eu acredito que isso pode fazer alguém mudar, ser transformado e ser salvo do mundo do crime através da educação, da música e da arte. E é disso que lembro quando me pego pensando em desistir, eu perdi meu primo tá ligado, tem menos de um mês, perdi ele pro tráfico, perdi meu primo mano, fui reconhecer o corpo dele, ele tava lá jogando sagrando, de baixo de uma árvore no final da rua em um buraco velho imundo. E eu não pude fazer nada para mudar aquilo, eu só desci a ladeira pedindo a Deus pra que aquilo não fosse verdade e que fosse engano, mas estava lá, não era engano e meu primo se foi pra sempre.

Eu quero que os primos dos meus manos continuem vivos, que suas mães não chorem saca? Eu não pude salvar o meu próprio parente tá ligado, e isso é um peso pra mim... Eu quero poder salvar outros moleques para que suas famílias não passem pela mesma situação que a minha. Essa é minha causa maior, não é só grana, não é só hype e ostentação tá ligado? Eu tô falado de vidas de seres humanos...

E essa é a bandeira que eu sempre vou levantar.

Ainda sobre ser artista preta na paris dos trópicos, Halaise afirma não acreditar que negros tenham as mesmas oportunidades que artistas brancos na cena local.

Eu só vou nos eventos que me convidam, e o meio musical que frequento geralmente tem uma galera negra, mas isso olhando para cena do rap que é bem mais desconstruída em relação a isso, porém sobre outras estilos musicais e outras tipos de arte é evidente que as pessoas brancas estão sempre em maior peso, diferente do que acontece com os artistas negros.


Sobre as melhores e as piores partes de ser artista em Manaus, a rapper comenta:

Acho que a melhor parte de ser artista em Manaus é aquilo que falei na resposta anterior. É levar a mensagem e transformar vidas por meio da arte. Essa é a melhor parte pra mim.

As piores partes são o desrespeito ta ligado principalmente pra quem canta rap, hoje nem tanto, mas quando comecei, na UFAM principalmente, a galera menosprezava isso, teve uma vez que um muleque de história chegou pra mim e disse que isso nem era música hahaha

[...] A galera desvaloriza muito isso, não respeita nosso corre, acha que a gente só faz isso por brincadeira, levam na chacota.

E olha que sou bem flexível em relação a Isso, mas tem hora que cansa, não dá sabe, aí vão começar a dizer que você não tem humildade que é orgulhosa e todas essas paradas.

Só que cansa mano, a gente tem família, tem coisas de casa para resolver, coisa da faculdade, vender algo para se adiantar e ter um dinheiro para colocar passe sabe, tudo isso é correria, mas a galera só vê a parte que a gente não vai lá. "Mana é só para fazer uma batalha de Slam" "É só para fazer um duelo de Mc's" "mana é só pra tu se apresentar rapidinho" e esquece que eu moro na Zona Leste que é quase 1h30min de ônibus pra chegar no centro. Então tem coisas que a gente tem que deixar de lado e valorizar nosso trabalho, senão a galera monta em cima.

Sobre as inspirações, ela afirma:

Cara, minha maior inspiração musical, aquela que fez eu me apaixonar ainda mais pela música e pelo canto é sem dúvidas o Michael Jackson.

Tenho também a galera do Rap, como o Emicida, Criolo, Sabotage, Dina Di, Racionais, DK 47 e mais uma pá

Sem falar da minha galera né, da cena daqui, os meus manos como o Gabriel Aruack, Marlon Filho, Catarina Eduarda, WCA e o mano Vittor Clover.

Peço que Halaise indique uma musica sua para quem não a conhece

Eu indicaria a música Funeral que é um feat meu com o Luk Black, tá disponível no meu canal do YouTube Halaise Asaf.

Essa música traz uma pegada bem reflexiva sobre a nossa vida e se realmente a gente tá fazendo as coisas acontecerem do jeito que a gente almeja antes que a morte nos abrace, então é uma música bem profunda, com uma mensagem bem impactante.

Então eu a indicaria para o pessoal me conhecer como artista e saber mais sobre meu trampo

Pergunto: Voltando a questão das suas composições, muitas são carregadas de críticas políticas e sociais. Você acha que existe algum compromisso seu como artista para abordar esses temas?

Eu entrei na cena e na militância justamente por isso, vi que se a gente quer que algo realmente mude, nós mesmo temos que correr atrás e contribuir para tal mudança.

É de total responsabilidade minha tratar de questão políticas e sociais na minhas letras porque essa é a forma mais fácil da galera consumir informações e elevar o pensamento crítico. Rap não é só música, é também uma ferramenta poderosa de informação de libertação e resgate.


Halaise é muito conhecida por ser organizadora do projeto slam, pergunto a ela a importância deste projeto para ela.

Eu vejo o Slam como um projeto revolucionador. Ele é muito importante para mim, uma conquista que me orgulho muito.

O Slam traz a oportunidade de voz e visibilidade para os moleques da periferia. O projeto faz com que as pessoas conheçam a produção poética de várias meninos e meninas que muita gente não dá nada, e quando começam a declamar você vê o artista, poeta/poetisa que se esconde por trás dos muros. Além de instigar os meninos a continuarem sempre escrevendo, já que a cada Slam ele precisa mostra uma poesia nova. O Slam veio para contribuir com a educação, trabalhando a escrita, o processo criativo, a leitura e performance.

Você sempre lança vídeos com sons seus, mas ainda não tem álbum lançado. A gente pode esperar algo do tipo esses tempos ainda? Quais os planos pro futuro?

Geral pode esperar sim, estou trabalhando no meu primeiro EP em parceria com meu mano Vittor Clover e a T4F Gang producer. O EP vai conter 5 faixas mais uma intro. Se tudo der certo no final desse mês de setembro ou início de outubro ele vai está sendo lançado. Então quem quiser acompanhar meu trampo me siga nas redes sociais para ficar pro dentro de tudo.

Instagram: halaise_asaf

Facebook: Halaise Asaf

YouTube : Halaise Asaf e T4F Gang producer

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