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  • Maria Moura

Entrevista com a cantora Elisa Maia


Cantora, compositora e produtora musical são alguns dos títulos que Elisa Maia carrega. Trabalhando profissionalmente com música a quase 20 anos, a amazonense já cursou arquitetura e fez parte da banda de reggae Johnny Jack Mesclado durante oito anos como backing vocal e compositora, chegando a gravar 2 discos, até que entendeu que queria fazer mais na música.


"O meu trabalho solo, por exemplo, demorou um tempo para acontecer no sentido de que eu passei, depois que eu saí da banda, 6 meses sem cantar e sem fazer show. Eu também fazia faculdade de arquitetura e urbanismo na época então foi um tempo também que tirei, estava no último semestre, pra me dedicar pro meu projeto final da faculdade. Depois eu voltei a cantar, fazendo os meus shows solo, como um trabalho que tinha uma proposta de ser mais particular mesmo, autoral, como a galera gosta de falar aqui na cidade."


Crescendo em uma família evangélica, seu amor por música nasceu através de seus pais. Com o rádio tocando em casa, Elisa conta que ouvia todo tipo de música seja rock dos anos 80, samba e pagode. Aos 8 anos seus pais a colocaram para estudar música no Centro de Artes da Universidade do Amazonas onde estudou por quase 10 anos piano, violão, teve aulas de canto e coral até a idade adulta e mais tarde, regeu o coral da igreja. Desde seu primeiro show Elisa já cantava músicas autorais, não só para o reconhecimento do seu trabalho, mas para construir sonoridades em suas composições. Sobre suas composições Elisa afirma que “talvez nem tivesse um trabalho na música se não exercitasse fazer as minhas próprias músicas”.


Quando fazia parte da Johnny Jack já tinha suas composições nos CDs da banda e inclusive compôs canções com Fred, baixista da Johnny Jack. Elisa afirma que depois dele, não teve nenhum outro parceiro de composição. Revivendo o passado durante essa quarentena, Elisa conta que sempre foi alguém que escrevia muito, seja listas de coisas para fazer da escola a o que estava pensando no momento. Para ela, compor ainda é aquele processo que nasce na madrugada, onde durante o dia suas ideias e pensamentos vão amadurecendo até o ponto de começar a criar melodias, pegar o violão e colocar em estruturas.


"De certa forma escrever para mim sempre foi um exercício tanto de aprendizagem quanto de elaboração das coisas que eu estava sentindo. Lembro das primeiras composições que eu fiz assim para exercitar. Peguei meu teclado e fiquei fazendo acordes que combinavam, depois tentei colocar uma letra e começou a dar certo. Pouco tempo depois eu entrei na Jonny Jack Mesclado. O Fred me viu cantando e pintou o convite para fazer backing vocal na banda e a partir daí não foi muito longo o processo de apresentar uma ideia para ele e a gente trabalhar juntos na primeira música. No primeiro e no segundo disco da Jonny Jack tem músicas minhas e dele, mas também tem músicas só minhas. O Brasil é um país de grandes intérpretes e eles me influenciaram pra caramba também. Compor, pra mim, era um caminho natural para começar a construir um trabalho."


Com a pandemia, a arte e a cultura foram as primeiras a saírem de campo tendo diversos shows e eventos cancelados. Foi com as redes sociais que artistas começaram a se reinventar e difundiram seus trabalhos por meio de lives que ajudavam quem precisa por meio de doações e ainda entretêm o público. Elisa participou de uma a convite da Bemol Farma e conta que teve dificuldade em pensar e interagir através delas. Esse convite foi como um reconhecimento de que mesmo em casa, ela ainda está imersa na música e que, de alguma maneira, ainda continua trabalhando.


"Eu inclusive falo disso dentro de um lugar de muitas vantagens né? Eu sou uma mulher negra, que mora na periferia, mas que tem uma estrutura, que tem internet, tem computador, tem equipamentos ou que pôde adquirir alguns durante esse processo. A gente continua falando que as lives vão ser um novo tipo de mercado, mas, mais uma vez, estamos em um processo que exclui artistas periféricos, artistas negros, indígenas e mulheres também. Acho um máximo estar conseguindo ter espaço e minimamente trabalhar sem esquecer que, quem consegue isso, já tinha espaço e equipamentos. É óbvio que quando eu escolho a palavra vantagem e não falo privilégio é porque eu sei que eu não desfruto disso. Eu tenho uma série de vantagens, mas corro muito para estar nesse lugar, pra não ser ignorada. Meu trabalho precisa da força de 10 Elisas para me manter e não ser invisibilizada. E essa não é a condição de muitas mulheres que. como eu, não tem a mesma estrutura, a mesma força, repertório, intelectual."



Ao ser questionada sobre o reconhecimento de artistas por atores locais como empresas e a mídia amazonense, Elisa comenta que ainda é algo muito pequeno e distante dada a hegemonia presente nas mídias atuais. Para ela, existe um interesse em sempre replicar mais do mesmo, é a música popular que conta com grandes investimentos financeiros. Elisa afirma que alguns programas locais já quiseram a colocar em situações que, na sua opinião, eram constrangedoras e vexatórias descaracterizando completamente seu trabalho.


"Muitas vezes a galera fala que as pessoas, o local não valoriza, o público não consome, mas eu nem culpabilizo o público porque a gente tem a massificação de uma cultura ligada a indústria da música capitalista que só ejeta dinheiro. São eles que compram os espaços na TV e na rádio. Os artistas locais são pobres, não são herdeiros e nem tem altos investidores, então é uma disputa desleal. Qualquer espaço que se abra, com uma qualidade também pra gente manter uma integridade artística, é importante sim."


Quando perguntada sobre as melhores e piores partes de se viver como artista em Manaus, Elisa diz que não é diferente de viver em outras regiões do país. Com oportunidade de, nos últimos anos, ir pelo menos uma vez por ano para São Paulo para falar de músicas e ir a eventos de negócio, a capital paulista é interessante para criar oportunidades e fazer curadorias de festivais. Elisa afirma que a diferença talvez esteja em termos de cenário, já que São Paulo está mais adiantado na questão de profissionais e cadeia produtiva musical.


Para ela, Manaus ainda está engatinhando no processo de produção e espaços estruturais para shows. Em Manaus não existem espaços feitos completamente para shows mas, mesmo com essas dificuldades estruturais, Elisa ainda vê a problemática como um espaço e mercado a serem explorados. “Eu particularmente amo minha cidade. Toda minha inspiração, mesmo que de forma sensorial para minhas músicas está aqui, tá no calor, tá na noite, tá nas vivencias que eu tenho em Manaus. ”


"Eu acho que mudar daqui pra qualquer outro lugar faria, talvez, eu me perder um pouco nesse sentido porque acho que isso torna a gente um pouco único. Eu não mudaria pra outro lugar porque eu acho que estar em Manaus me confere uma particularidade. No entanto, é importante que como artista da música eu circule, passe temporadas em outros centros como São Paulo ou Rio e que tenha também um planejamento de circulação por outros lugares pra divulgação da música, inclusive porque ainda somos colonizados né? Tipo, temos aquele sentimento de que fulano vai fazer show em São Paulo e no Rio e a galera acaba valorizando isso aqui, o que é bem doido e ridículo as vezes, mas acontece... Às vezes você precisa ser reconhecido em outros lugares para o seu lugar também te reconhecer. Mas eu volto ao chover no molhado quando digo que eu não vejo culpa no público, porque a gente realmente disputa com uma cultura hegemônica e aí é complicado mesmo."


Elisa também falou sobre o cenário cultural da cidade. Para trabalhar em Manaus e viver de música, ela também investe na produção cultural, que muitas vezes tem “uma tendência a lhe engolir”. Com esforço para manter um equilíbrio, Elisa dedica todo seu tempo a música e conta que seu trabalho consome boa parte de sua energia. “Tipo, música é a minha vida. Então tem muitas coisas das quais eu abro mão porque senão a disputa ficaria bem complicada em termos de trabalho. E é pesado, é desgastante, doloroso e desafiador manter uma perspectiva de que você está fazendo a coisa que você mais ama na vida. ”


Ao ser questionada sobre se já havia sofrido algum tipo de preconceito Elisa diz que, se estiver falando de racismo, ela o enxerga muito na relação estrutural em que vivemos, uma sociedade racista, mais até mesmo que um fato isolado onde ela tenha sofrido racismo. “O fato de falar pra você que tenho que fazer 10 vezes mais do que algumas pessoas que também tão no mesmo corre que eu diz muito sobre isso”.


Elisa destaca que precisamos entender como o racismo atua dentro dessas estruturas, quando não reconhecemos outras figuras e artistas porque não há visibilidade, acesso ou estrutura. “A sociedade as vezes só quer elencar uma pessoa naquele contexto. Eu vejo muito mais o racismo atuando na minha vida quando eu tenho que fazer um esforço gigantesco para não ser invisibilizada”.


"E ainda sobre preconceito e racismo eu tenho que levar em consideração que mulher negra eu sou né? Eu sou uma mulher negra de pele clara, alguém que acessou desde muito cedo espaços de extrema vantagem, de estudar em escola particular, de fazer uma universidade, de acessar espaços culturais, ter aulas de música, várias coisas que colocaram em mim um repertório, um jeito de falar, uma comunicação que é muito aceitável entendeu? E fugindo desse padrão, que de certa forma atendo, se você é uma pessoa negra mais retinta, se você é uma pessoa negra que a sociedade não enxerga que tem esse, entre muitas aspas trato, essa educação, você é totalmente rejeitado. Então eu falo desse lugar de vantagem também."


Quando perguntando sobre o espaço no meio artístico de Manaus para artistas negros, Elisa disse “que tem a ver também com um reconhecimento de identidade”. Segundo ela, vivemos numa cidade que é racista, principalmente devido ao apagamento de identidade seja ela negra ou indígena. Foi assumindo uma postura afirmativas que começamos a enxergar os artistas do cenário artístico da cidade. Elisa cita como exemplo a banda Cabocrioulo, que com seu nome já conseguiu passar uma ideia de afirmação. Elisa conta que ainda se pergunta se outras pessoas conseguem entender essa ideia também. “Acho que artistas como eu, Karen Francis, Ian Lecter, Jéssica Stephens e tantos outros vem falando sobre isso nos últimos anos, fazendo essa afirmação justamente para não sermos invisibilizados”.


"E não é que a gente só cante isso. Eu sou uma mulher negra que pensa no meu tempo, nas minhas relações com a cidade, com o ambiente em que vivo. A Karen Francis também não, talvez o Ian fale mais disso porque ele lançou um disco chamado Cor da Alma e ele é do rap que tem uma contundência, faz e cumpre esse papel. E outra, não só pessoas negras ou artistas negros tem se afirmado, como a gente tem buscado criar espaços e ambientes pra debater de forma segura."


Atuando como produtora cultural desde 2011 no Coletivo Difusão, Elisa afirma que isso é uma premissa dentro de seus projetos, enxergar a produção artística e entender que ela precisa da representação mais fiel da sociedade. “Somos 54% da população autodeclarada de pessoas negras no Brasil então eu também tenho um compromisso de trazer essa questão para as minhas produções”.


"Também venho entendendo os espaços que eu não quero disputar. Se eu não disputo certos espaços, eu também me coloco na disposição de construir novos seja através de um festival que pense em jovens artistas negros periféricos, seja nas minhas parcerias, seja enquanto eu, uma mulher negra que desfruta de muitas vantagens possa estimular e colaborar com o trabalho de outras pessoas negras, de outras mulheres artistas, de outros homens artistas negros periféricos que se pareçam mais comigo que tenham menos estrutura e condições. Então é por aí, eu acho que não tem mais espaço não, acho que a gente que tá movendo mais peças pra ser e pra ter essa visibilidade."


Perguntamos para Elisa quais os seus planos para o futuro o que ela respondeu “sobreviver até a vacina” aos risos. Com um EP lançado em 2013, contendo 5 músicas, Elisa estava trabalhando em seu novo projeto, que conta com 4 faixas, quando a produção teve de ser parada com a pandemia.


"Eu desisti depois de um tempo, fiquei 40 dias em casa quando pintou a quarentena. Então não sei o que vou fazer... pensei, olhei, avaliei, li muita coisa e só saio de casa quando o Atila Iamarino disser que pode, que a vacina funciona [risos]. Então eu pensei melhor e como eu tenho essas 4 músicas para trabalhar já prontas e tenho um videoclipe pronto também e tô produzindo um segundo videoclipe que é em casa mesmo, vou lançar essas faixas de agosto até início de dezembro. Nesse momento vou trabalhar mesmo minha presença, minhas músicas novas, colocar os videoclipes nas redes e nas plataformas e ter um planejamento estratégico para ocupar esses espaços seja com funcionamento ou com estratégias."


Elisa conta que após o lançamento de seu novo EP continuará trabalhando em música novas. Enquanto está em casa, Elisa não ficou parada e agilizou alguns planos que já tinha a algum tempo. Com seu curso de produção musical para dominar softwares de música, Elisa já fez shows somente com ela, seu notebook e uma controladora. Manipulando o programa Ableton Live, Elisa conta que o software também é perfeito para produção musical. “Fiz um curso ano passado que foi muito legal e me estimulou muito. O novo cenário é que o artista, nesse contexto da pandemia inclusive, ainda demorará muito viver numa normalidade de frequentar estúdios e reunir pessoas. Se fosse em outro momento eu iria pro estúdio acompanhar. Mas agora não, a pessoa tá fazendo lá, me mandando e eu avaliando daqui. ”


"Os planos pro futuro vão depender de muitas coisas mas também é uma forma de colocar em prática coisas que eu já tava querendo a muito tempo que era ter mais autonomia do que já tenho, do meu trabalho e com minha música. Eu já componho, consigo me gravar minimamente, toco um instrumento então é botar isso pra jogo inclusive porque tem pouquíssimas mulheres que dominam o software. E eu acho que demorou sabe, eu tava esperando que nascesse alguém, nascessem mulheres na cidade, que tivessem esse interesse e ai depois eu entendi que não, sou eu mesma e vamos nessa. Depois botamos isso pra jogo pra outras mulheres também. Eu sou dessas agora, por mim todo mundo vai ter um computador, um programa, uma plaquinha, um microfone e vamos manas."


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Ouça o EP ‘Ser da cidade’ no Spotify: bit.ly/SpotifyElisaMaia

Confira as performances ao vivo no YouTube: bit.ly/ElisaMaiaYT

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