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  • Maria Moura

Entrevista Anderson Black



Quem é Anderson Black?


Anderson Black se resume em duas palavras que carregam um forte significado: resiliência e resistência. “Em toda minha vida tive que me provar uma pessoa resistente, uma pessoa principalmente resiliente, que sempre tava ali aguentando, tava no fronte, tendo que se reinventar, tendo que buscar autocura, autoconhecimento e eu acredito que trago toda essa resiliência no que eu faço”. Como um filho que cuida da mãe, um artista e defensor dos direitos da comunidade LGBTQIA+ e da comunidade negra, Anderson se classifica como uma pessoa extremamente alegre e extrovertida, que busca sempre estar de bem com a vida, enfrentando o que vem pela frente e não “deitando pra qualquer um”.


Destacando grandes artista pretas da música brasileira como Vanessa Jackson, Deise Cipriano, Ludmilla, Liniker, entre outras, Anderson conta que sua criação, cercado de mulheres pretas, também é parte importante da sua inspiração. “Fui criado por mulheres pretas a minha vida inteira, não tive pai, então a minha criação foi com elas. Muitas mulheres pretas frequentavam a minha casa então fui criado vendo a luta, a raça, a força que aquelas mulheres solo, aquelas mães solo, mães negras, cuidavam dos seus filhos. (...) Na minha vida, na minha arte, eu tento enaltecer o trabalho das mulheres pretas porque foram elas que trouxeram a minha inspiração artística, a inspiração, até mesmo, pra conseguir vencer na vida”.

Foi só aos 13-14 anos que Anderson começou a ter real interesse pela música ao cantar na igreja. “Eu sonhava com tudo, menos em cantar. Eu tinha muita vontade de ser astronauta, estudar as estrelas, estudar o universo, essas coisas”. Foi com um professor da escola que Anderson começou a ter aulas de canto e, na igreja, utilizou os conhecimentos adquiridos. “Com o tempo eu fui cantando em casamentos, fui começando a empreender mais, me apresentar em shows, em covers. E, hoje em dia, eu defendo a música black brasileira e canto música black brasileira”.


Em seu Instagram, Anderson se descreve como cantor, ator, bicha preta, ativista e artista. Quando questionado sobre como essas descrições o definem como indivíduo e no seu trabalho de modo geral, Anderson conta que é a partir dessa interseccionalidade que ele pode apresentar suas vivências no meio artístico. “Eu sou uma pessoa que vive na parte da periferia de Porto Velho (RO) e um dos poucos que não estão envolvidos, principalmente no meu bairro que é extremamente periférico, com tráfico, com drogas. A arte me salvou, a música me salvou, o teatro trouxe muitas oportunidades pra mim. Eu devo tudo a arte hoje em dia praticamente”.

Para ele, a arte o levou e leva a lugares que nunca imaginou estar “e ser bicha preta afeminada na arte, é um ato de resistência, é um ato político e um ato que a gente para e diz: É isso que eu quero fazer, é o povo preto que eu quero defender, é o povo preto que eu quero enaltecer e eu quero chegar a espaços de poder, a lugares de poder onde os não-negros estão”. É por meio dessas vivências, do que ele canta, o que faz e o que milita que Anderson mostra toda sua luta. “Tá atrelado as minhas fotos maquiadas ou quando me visto de drag. Tudo isso é a junção do que eu sou e é extremamente necessário porque eu não tô sozinho. Tem muitos outros que também fazem a mesma coisa que eu”.


Anderson também participa em sua cidade de grupos de ativismo negro. Para ele, a participação nestes espaços é imprescindível para a construção de uma consciência política, uma consciência racial. É mostrar qual a importância do povo negro, da sua história e dos lugares que vai chegar a frequentar. É levar o povo preto para as universidades, mostrando toda sua luta e construção.

“O movimento negro aqui em Porto Velho me ajudou, e tem me ajudado, não só como autoconhecimento e empoderamento, mas também ajuda a outras pessoas. Me ajuda a cantar, me ajuda a sentir isso... a sentir minha ancestralidade, ir atrás da minha história na hora de cantar, na hora de atuar. Então, o movimento negro serve despertar a mente das pessoas, criar consciência racial em negros que não tem essa consciência e também despertar as pessoas a favor das nossas lutas”.


Sobre as melhores e piores partes de ser artista na sua cidade, Anderson conta que saber que está, que vive, numa cidade rica em história e cultura é maravilhoso. A cidade conta com cantores excepcionais, atores incríveis, poetas e poetisas que fazem com que a atmosfera de Porto Velho contribua com muito material para os artistas. O cenário cultural e os meios de comunicação foram importantes fatores para alavancar o nome de Anderson na cidade. Trabalhando em peças teatrais e com preparação vocal, a mídia abriu espaço para que Anderson pudesse mostrar todo o seu talento e seu trabalho de frente de resistência.

Já a parte ruim, assim como outros relatos de entrevistados da BKN, fica por conta da falta de incentivo do governo, falta de políticas públicas e conhecimento sobre o que é divulgado, além de uma cultura que não aprecia o meio artístico.


“Eu acredito que uma das piores partes de ser artista na cidade, nessa cidade, é que a gente precisa matar 3, 4, 5 leões por dia pra sobreviver. Eu morei em São Paulo um tempo e estudei teatro musical lá, então quando eu voltei pra cá encontrei um outro patamar, era outra vida. (...) Se a gente não se juntar, os artistas não se juntarem pra lutar, a gente acaba sucumbindo. A gente sempre precisa tá fazendo coisas independentes por falta de incentivo. Se não for um edital, um concurso a gente não consegue fazer peças, tudo é muito caro. O que é bom é que somos extremamente inteligentes e talentosos. Tem pessoas aqui que tem potencial pra voar o mundo”.


Assim como outros entrevistados, perguntamos a Anderson se ele já havia sofrido preconceito. Anderson conta que crescer como uma criança preta e “uma criança preta viada, dificilmente as pessoas deixam a gente esquecer que é preto. Toda hora a gente é lembrado que é preto. Toda hora a criança preta é lembrada que ela tem uma cor de pele escura porque os coleguinhas zombam”. Carregando marcas que moldaram seu jeito de ser e de se expressar em sociedade, Anderson conta que era uma criança cabisbaixa, que não falava ou se expressava muito e não sorria direito. Foi com o tempo que Anderson conquistou mais consciência racial e, com ajuda da terapia, do autoconhecimento, do estudo e do teatro que conseguiu sua liberdade.

“Depois que eu me assumi, depois que eu vim pra fora, depois que eu decidi colocar a cara a tapa mesmo, ser quem eu era de verdade, meu ciclo de amizade mudou. Muita coisa mudou. Passei por muito mais preconceito, muita gente falando, mas eu estava diferente, tava empoderado e não ligava. Até mesmo dentro de casa, com minha mãe, era uma situação muito difícil porque ela sempre foi extremamente conservadora e homofóbica. Mas, com o tempo, acabei lidando com isso e ela acabou aceitando. Aceita até hoje”.


Além do preconceito, Anderson também contou que lidou com um episódio de agressão na rua quando voltou para sua cidade. “Ele (agressor) passou perto de mim, me olhou da cabeça aos pés, viu minha roupa, meu jeito e resolveu me agredir, resolveu me bater. Aquilo... a agressão em si não doeu tanto, o que mais doeu foram algumas pessoas terem presenciado e não terem me ajudado. Aquilo sim doeu por ver a falta de empatia das pessoas, por ver a falta de tato, a falta de amor das pessoas vendo o sofrimento de alguém que é minorizado”.


Outro episódio também relatado por Anderson foi um ataque virtual, dessa vez de um grupo extremista do governo, com viés de injuria racial e ataques homofóbicos. Com ajuda de advogados, Anderson conseguiu abrir um inquérito e o processo está em andamento.

“Nada disso é agradável, nada disso é confortável, mas eu sempre uso isso e a minha visibilidade hoje, até mesmo na TV e em outros lugares, pra dizer que a gente não pode se calar, a gente precisa sempre tá falando, tá protestando, tá indo em frente. As vezes parece ser maçante, eu falo muito no meu Instagram: Gente eu sei que é maçante ficar toda hora falando vidas negras importam, ficar falando de racismo e tudo, mas se não fosse necessário, a gente não estaria falando isso daqui. Porque se eu to falando é porque ainda existe, principalmente nessa cidade que é extremamente preconceituosa e conservadora, quer dizer, tem falso conservadorismo”.


Questionado sobre se existe diferença no tratamento de artistas negros Anderson conta que existe diferença no tratamento e em qualquer lugar. Seja nos espaços sociais, seja na arte, na música, o negro sempre é visto como algo inferior “principalmente a mulher negra, que é extremamente sexualizada e subalternizada”. Anderson afirma que desde que voltou para sua cidade, no final de 2018, ocorreram diversas situações de pessoas que trabalhavam com ele que foram extremamente racistas e, no fim, tiveram que ser abafadas por ele para não ser prejudicado.

“Eu costumo dizer nas minhas entrevistas que as pessoas querem a nossa voz, mas elas não querem a nossa imagem porque culturalmente as pessoas foram ensinadas a olharem o padrão eurocêntrico. (...) A gente vê ai, artistas milionários e que sofrem racismo. Vê a Ludmilla que tem muito dinheiro, lutou pra chegar onde tá e sofre racismo, Maju que tá na TV apresentando o jornal, Thelma que ganhou o Big Brother. O racismo vai além da posição social. Ajuda ter uma boa posição social? Ajuda, mas o racismo ultrapassa essa estrutura. Então eu vejo sim muito tratamento diferente, olhares das pessoas quando vou me apresentar em alguns lugares, e quando elas me ouvem cantar, elas já agem diferente, mas sempre com aquela objetificação. Até mesmo em relacionamentos o corpo negro é tratado com objetificação. Você precisa ser o dotado, você precisa ser o másculo. Aquele que cuida da casa, mas não serve pra casar só pra transar. Então a gente é extremamente objetificado, subalternizado e preterido”.


Sobre seus planos pro futuro, Anderson conta que já estão acontecendo nesse momento, um deles é viver da sua arte. Com a ajuda de seu agente, Anderson se inscreveu e passou em editais de Porto Velho e agora está trabalhando em cima disso.

“Nesse semestre a gente tá se planejando para gravar clipes, gravar CDs, EPs, gravar lives. A gente conseguiu passar em alguns editais e tá ai agora lutando para conseguir fazer todo esse trabalho, publicar e ver a nossa arte sendo resistência, nossa letra invadindo as plataformas digitais. Meu plano pro futuro também é me dedicar ao teatro musical, sair de Porto Velho, assim que der, mas antes eu vou terminar de fazer meu nome aqui. Voltar pra São Paulo, voltar a viver no teatro musical e viver da minha arte sempre”.


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